Sócrates: o futebol além do jogo
O pouco que me
lembro da Copa de 82, na Espanha, era a vinheta na TV da competição, que trazia
o mascote laranjinha, com o uniforme da seleção espanhola. Na época eu morava
no bairro do Gonzaga em Santos, e todo dia antes de sair pra escola primária, meu
pai tinha que esperar paciente eu assistir aquela vinheta que antecipava o
programa Globo Esporte. Eu aguardava ansioso com uniforme e lancheira pronta
pra ver a animação da laranjinha correndo com a bola.
Não acompanhei a Copa de 1982, mas me lembro de assistir na TV cenas da
seleção brasileira. Daquela mágica seleção de Zico, Sócrates, Falcão, Serginho
etc. Jogadores caneludos, cabeludos e magros, com aquela camisa amarela gema de
ovo. Quando criança eu pouco sabia sobre o jogo, mas sobrava no meu imaginário
as cores, os cantos, o mascote colorido e todo clima que envolvia a Copa. Eu me
entusiasmava com a festa. Sentia que todos nós fazíamos parte daquele evento.
Aquela seleção de 82 não me caousou nenhuma frustração pois eu pouco entendia,
mas me conquistou pela simpatia dos seus craques.
No domingo do dia 4 de dezembro, em dia de clássico decisivo entre Palmeiras
e Corinthians, tivemos logo pela manhã a triste notícia da morte do ex-jogador
Sócrates. A partir dali, ficou em segundo plano aquela importante rodada do
campeonato brasileiro de 2011, que poderia dar ao Palmeiras a redenção de um
ano vergonhoso, caso vencesse o maior rival e por sorte o Vasco ganhasse no Rio
do Flamengo tirando assim a taça do Corinthians.
Estávamos todos muito tristes pela morte de Sócrates e toda simbologia que
ela significava. Na hora do jogo, na homenagem ao centro do gramado, quando
todos os jogadores e árbitros fizeram uma grande roda, só os jogadores do
Corinthians levantaram os braços repetindo o gesto do jogador Sócrates quando
fazia um gol. Eu como palmeirense e amante do futebol, fiquei
envergonhado de ver o capitão do meu time não liderar a equipe, levantando
também o braço com o punho fechado.

A rivalidade daquela tarde tinha um sabor diferente. Sócrates era jogador
do Corinthians sim. E por mais que os palmeirenses quisessem a todo custo acabar
com qualquer chance de alegria corintiana naquele dia triste pra todos, o jogo
em si deveria seguir o fluxo sentimental que pairava. O Corinthians não jogou e
o Palmeiras tão pouco. Foi um zero a zero feio. Não por conta da falta de gols,
mas por ter sido um jogo sem o que ele mais precisa: sentimento, sentido e brilho.
Aquele jogo era pra ser diferente, porque no futebol, muitas vezes um jogo não é
só um jogo, e aquele com certeza não era. Lógico que quis ver o verdão vencer o
Corinthians e tirar o título do rival, mas antes de mais nada, ficaria bem mais
feliz de tivéssemos assistido um clássico memorável. Um épico merecido pela
circunstâncias aquele dia.
Hoje, quanto mais a gente investe na cultura do futebol resultado, como
times jogando taticamente defensivos ou ainda num formato bizarro que não
utiliza nem cinqüenta por cento do potencial do jeito brasileiro de jogar. Quanto
mais os torcedores impacientes que acreditarem que a pressão violenta contra
atletas é a base da conquista de títulos. Quanto mais avançarmos pra essa lógica
do eco exacerbado que reduz o futebol no produto final do título ao invés do
processo artístico da prática do jogo, mais veremos atitudes burras como a dos
atletas do Palmeiras que coletivamente ali demonstraram nem entender ao certo o
significava a morte do ídolo brasileiro Sócrates. Uma idiotice disfarçada de
rivalidade esportiva.
Sócrates foi um dos poucos jogadores/cidadão que refletiu muito bem o
contexto histórico do Brasil na sua época. Foi o primeiro atleta a exigir em seu contrato o sim da concentração imposta aos jogadores profissionais. E não só, extendeu essa conquista aos outros atletas do time. O episódio foi conhecido como democracia corintiana. Mal ou bem foi um momento diferenciado no futebol aquele movimento. Mas o mais legal do Sócrates, além se ter sido um jogador único. Com sua estética futebolistica diferente. Ele até os últimos dias se sua vida se manteve fiel aos
valores que acreditava. Sempre crítico e visualizando um país mais justo e
próspero socialmente. No Brasil desmemoriada que vivemos, ao menos
poderíamos nos esforçar pra entender o valor histórico de algumas pessoas do
futebol, e quem sabe criarmos uma consciência coletiva do passado e presente
como brasileiros. Obrigado Sócrates, por ter dado a mim desde criança, um
sentido maior ao futebol.
Um comentário:
otimo texto, parabens!
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