terça-feira, 30 de junho de 2009

Saudade



Entrei no banheiro do Mercado Municipal de São Paulo. Um banheiro pequeno perto do enorme fluxo de gente. Era um dia de pouco frio, mas lá dentro senti um calor humano. Um calor de gente mutuada. Mesmo sem olhar um na cara do outro, aquela gente toda estava acolhida. O lugar tinha cheiro de gente também. Perfumes, urina, roupa usada.
Entrei no banheiro e não pude deixar de notar um sujeito alto e de meia idade. Agasalhado, com uma blusa de lã que cobria o pescoço e sobre ela uma jaqueta preta e uma pá na mão. Era um funcionário da limpeza que tentava manter certa ordem naquele caos de gente. As pessoas saiam e entravam, lavavam as mãos por obrigação (água fria) e deixavam o local rápido. Não era tão rápido, mas era tanta gente em movimento que parecia que ninguém ficava lento naquele lugar. Passos largos e cabeça baixa. Entravam e saiam. A luz era escura. O ambiente era cinza.
O homem alto não olhava para ninguém, mas observava um cesto de lixo onde todos jogavam o papel toalha usado pra enxugar as mãos frias. Jogavam assim, sem nem perceber, olhavam rapidamente pro espelho e saiam. Desviando de outros tantos que entravam.
De tanta gente e papel toalha, o cesto estava sempre pela boca. O homem com a pá na mão, caminhava, também em passos longos, em direção ao cesto. Levantava a pá e emburrava os papeis para o fundo do lixo. Ao terminar ele caminhava pra um outro canto daquele fluxo todo e não tirava os olhos do cesto. Logo ele partia rapidamente em direção ao lixo e empurrava novamente os papeis. Não fazia uma só vez. Repedia o movimento constantemente. Os olhos nunca estavam distraídos. Olhava fixamente. Ele estava empenhado no seu trabalho, mas sua atenção estava além dos seus movimentos. A ação era condicionada, mas também muito consciente. No entanto ele não olhava o lixo. Respirava fundo algumas vezes e aquele mundo de gente não estava lá senão para jogar o papel no cesto. E ele conversava com aquele cesto e seu olhar dizia isso. Ele falava sobre saudade.
Fiquei lá, parado, observando-o por alguns instantes. E mesmo eu, contrariando a lógica do movimento do banheiro, não consegui desviar sua atenção interna. Eu também falava sobre saudade. Fui embora com a sensação que aquele homem, em seu movimento entre gente passando e o empurrar dos papeis com a pá, era continuo e eterno.
Naquela tarde quase fria fui a Pinacoteca do Estado. Era dia de muita gente, sábado, entrada franca. E parece que São Paulo sempre é dia de muita gente.
Segui em busca de uma obra em especial. Muito mais que uma visitar a uma pinacoteca ou admirar uma pintura, naquela tarde eu precisei da Saudade. Eu não sou bom pra ver as coisas normais. Não sei ir à pinacoteca alguma, mesmo já tendo ido algumas vezes nessa. Não me ensinaram. Fui lá porque eu necessitei e por ventura isso era um passeio. Que bom.
Segui numa ansiedade medida. Cada passo era dado por mim como se todo mundo soubesse que eu precisava estar diante daquela imagem. Então fiz tudo como um adulto, andei mentindo que estava calmo e acabei ficando calmo mesmo e entrei naquela sala, me contendo, desprezando a obra que tanto me atraia. Observei com carinho outras pinturas do mesmo artista. Era justo.
Passei pela Saudade, mas desviei o olhar. Olhei pro chão e segui esperando um momento certo. Pessoas passavam por mim e aquele silêncio esquisito de muita gente num mesmo lugar me perturbava. O bagulho do assoalho de madeira era mais alto que o silêncio e também me distraia. Nesse instante eu já estava com o coração querendo ficar dividido. Criei uma coragem envergonhada naquele silêncio e fiquei diante do quadro.
A mulher num quarto simples, junto a janela, com a cabeça baixa, olha fixamente para um papel que segura com sua mão esquerda e com a outra esconde a boca com um xale preto. As paredes estão avermelhadas pela luz que vem de fora e todo o resto fica em torno do centro negro do quadro. A saia longa preta, o xale negro num escuro com cor.
A claridade que entra pela janela faz com que os cabelos dessa mulher tenham uma luz negra e isso me atrai para seu rosto branco, cheio, macio e com cheiro. Uma lágrima brilhante escorre. Uma lágrima que sai de dentro dela com tanta autoridade que a faz ser maior que a tristeza. Ela tem a tristeza pra si. Não é desespero disfarçado. Não pede ajuda embora eu quisesse entendê-la.
Depois de um tempo não consegui ver mais a quadro nem sua moldura nem ouvir os passos no assoalho. Descobri sobre saudades. Essa mulher branca, com as mãos delicadas e quentes, procura algo que a possa lembrar do dia que mesmo não sendo feliz, ela sentiu saudade. Uma saudade (vazio repleto) que podê-se ter e podê-se medir e esnobar. Ela conversa com a lembrança porque agora sabe que saudade é ser saudade. E a lágrima que escorre não é fraqueza, é sua afirmação. Ela precisa sempre lembrar que tem isso em si. Não existe outro grito tão ensurdecedor no mundo. Esse grito tem muito de injustiça também.
A dor dessa mulher não serve só pra olhar porque ensina a ser feliz e triste. A entender (sem precisar) que é possível brincar com a saudade. E a tristeza de saber até onde pode ir nossa fortaleza (ela é maior que a multidão). A saudade é honesta.
Eu não pude deixar de lembrar do homem do banheiro do Mercado Municipal. Ele segurava aquela pá e não chorava, mas respirava fundo. E por algum motivo eu tenho certeza que ele falava de saudade com aquele cesto. Porque no rosto enrugado não tinha tédio. Ele não era nada além daquilo que já entendia ser e sabia o que fazia e tinha em si uma fruta doce que nunca saia de lá mesmo estando velha. Ele deveria sair daquele banheiro e encontrar essa mulher. Ambos não passariam despercebidos.
Eu me senti pequeno perto daquele quadro e da mulher. E senti amor pelos dois. Quis tocá-los. E não tive dó daquele homem. Eu quis entendê-lo. E quis ser como eles. Quis aprender a ter saudade. Quis sair pelas ruas e assistir tanta gente mutuada e me sentir solitário de um jeito diferente. Aprender a ter saudade, a ter saudade e a ser saudade. Conter tudo em mim e tudo em uma lágrima.
Ricardo Brasileiro