quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Sócrates: o futebol além do jogo


        O pouco que me lembro da Copa de 82, na Espanha, era a vinheta na TV da competição, que trazia o mascote laranjinha, com o uniforme da seleção espanhola. Na época eu morava no bairro do Gonzaga em Santos, e todo dia antes de sair pra escola primária, meu pai tinha que esperar paciente eu assistir aquela vinheta que antecipava o programa Globo Esporte. Eu aguardava ansioso com uniforme e lancheira pronta pra ver a animação da laranjinha correndo com a bola. 

          

                                                Não acompanhei a Copa de 1982, mas me lembro de assistir na TV cenas da seleção brasileira. Daquela mágica seleção de Zico, Sócrates, Falcão, Serginho etc. Jogadores caneludos, cabeludos e magros, com aquela camisa amarela gema de ovo. Quando criança eu pouco sabia sobre o jogo, mas sobrava no meu imaginário as cores, os cantos, o mascote colorido e todo clima que envolvia a Copa. Eu me entusiasmava com a festa. Sentia que todos nós fazíamos parte daquele evento. Aquela seleção de 82 não me caousou nenhuma frustração pois eu pouco entendia, mas me conquistou pela simpatia dos seus craques.  
No domingo do dia 4 de dezembro, em dia de clássico decisivo entre Palmeiras e Corinthians, tivemos logo pela manhã a triste notícia da morte do ex-jogador Sócrates. A partir dali, ficou em segundo plano aquela importante rodada do campeonato brasileiro de 2011, que poderia dar ao Palmeiras a redenção de um ano vergonhoso, caso vencesse o maior rival e por sorte o Vasco ganhasse no Rio do Flamengo tirando assim a taça do Corinthians.
Estávamos todos muito tristes pela morte de Sócrates e toda simbologia que ela significava. Na hora do jogo, na homenagem ao centro do gramado, quando todos os jogadores e árbitros fizeram uma grande roda, só os jogadores do Corinthians levantaram os braços repetindo o gesto do jogador Sócrates quando fazia um gol. Eu como palmeirense e amante do futebol, fiquei envergonhado de ver o capitão do meu time não liderar a equipe, levantando também o braço com o punho fechado.
A rivalidade daquela tarde tinha um sabor diferente. Sócrates era jogador do Corinthians sim. E por mais que os palmeirenses quisessem a todo custo acabar com qualquer chance de alegria corintiana naquele dia triste pra todos, o jogo em si deveria seguir o fluxo sentimental que pairava. O Corinthians não jogou e o Palmeiras tão pouco. Foi um zero a zero feio. Não por conta da falta de gols, mas por ter sido um jogo sem o que ele mais precisa: sentimento, sentido e brilho. Aquele jogo era pra ser diferente, porque no futebol, muitas vezes um jogo não é só um jogo, e aquele com certeza não era. Lógico que quis ver o verdão vencer o Corinthians e tirar o título do rival, mas antes de mais nada, ficaria bem mais feliz de tivéssemos assistido um clássico memorável. Um épico merecido pela circunstâncias aquele dia.
Hoje, quanto mais a gente investe na cultura do futebol resultado, como times jogando taticamente defensivos ou ainda num formato bizarro que não utiliza nem cinqüenta por cento do potencial do jeito brasileiro de jogar. Quanto mais os torcedores impacientes que acreditarem que a pressão violenta contra atletas é a base da conquista de títulos. Quanto mais avançarmos pra essa lógica do eco exacerbado que reduz o futebol no produto final do título ao invés do processo artístico da prática do jogo, mais veremos atitudes burras como a dos atletas do Palmeiras que coletivamente ali demonstraram nem entender ao certo o significava a morte do ídolo brasileiro Sócrates. Uma idiotice disfarçada de rivalidade esportiva.
Sócrates foi um dos poucos jogadores/cidadão que refletiu muito bem o contexto histórico do Brasil na sua época. Foi o primeiro atleta a exigir em seu contrato o sim da concentração imposta aos jogadores profissionais. E não só, extendeu essa conquista aos outros atletas do time. O episódio foi conhecido como democracia corintiana. Mal ou bem foi um momento diferenciado no futebol aquele movimento. Mas o mais legal do Sócrates, além se ter sido um jogador único. Com sua estética futebolistica diferente. Ele até os últimos dias se sua vida se manteve fiel aos valores que acreditava. Sempre crítico e visualizando um país mais justo e próspero socialmente. No Brasil desmemoriada que vivemos, ao menos poderíamos nos esforçar pra entender o valor histórico de algumas pessoas do futebol, e quem sabe criarmos uma consciência coletiva do passado e presente como brasileiros. Obrigado Sócrates, por ter dado a mim desde criança, um sentido maior ao futebol.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

depois da chuva





Uma tarde de chuva num dia de dezembro. O céu permanecia escuro mesmo depois da chuva. Mas o sol, que ainda não havia ido embora pelo horário de verão, bate nas casas, árvores da praça e prédios. De repente a cidade fica dourada. Olho pela janela e inevitavelmente gosto daquilo. E aquele cenário calmo, com barulho normal de fim de tarde, me faz ficar diante de tudo até chegar dentro de mim. Quando me vejo, sinto falta. Essa falta é uma invenção que nasce num dia quente onde nada te conectava ao mundo. Uma inquietação que te faz virar dum lado pro outro na cama de madrugada. Procurar aquilo que você nem precisa pra colocar no lugar dos sabores que nos últimos tempos você já sabe o gosto que tem. Querer porque você sabe que pode, e isso basta por um breve momento, até sentir mais fome.Caçar o que fazer quando você pensava que teus dias estavam mesmo ocupados. Uma invenção que vem como dor nas costas quando você senta de mal jeito e só percebe quando se levanta e ela vai embora. Quando você está sozinho, e decide não querer mais se prevenir, nem preencher todo dia o vazio com planejamentos importante.
Um alguém por acaso. Um acaso que se torna necessário