quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Aprendendo na Escola da Prisão


Ninguém passa ileso à experiência de estar numa prisão. A tensão de passar pelos enormes portões de ferro, a rispidez habitual dos guardas, os policiais nas muralhas, até o primeiro contato visual com os internos: os pés geralmente calçados com chinelo, calça bege e a cabeça baixa. Caminhando disciplinados pelo corredor, olhando pro chão com as mãos para trás. Os rostos deixando transparecer angústia e ódio contido. Alguns te encaram com um olhar de sofrimento. Outros estão calmos ou ocupados o bastante em alguma atividade (limpeza, cozinha, etc). E dependendo da ocasião, há aqueles que tentam puxar uma conversa simpática. A cada passo em direção ao interior da penitenciaria, as grades são fechadas bruscamente em nossas costas, num som que percorre nossa alma e segue galeria adentro.

Eu estava no segundo ano da faculdade de história, e havia conseguido um estágio, como educador nas recém inauguradas penitenciárias compactas de Serra Azul I e II aqui no interior de São Paulo. Contratado pela FUNAP, uma fundação que desenvolve por meio do trabalho e educação a ressocialização dos sentenciados. Como todo universitário, eu também tinha minha cota de imaturidade ideológica, mas encarar esse desafio foi talvez a primeira chance que tive de colocar em prática um bocado de crenças políticas que impregnava meu imaginário.

Toda contradição encontrada no cotidiano de uma prisão dava a nítida impressão da incapacidade de colocar em prática aquilo que no discurso oficial era declarado: que os indivíduos lá trancafiados, estavam sendo reeducado pelo sistema prisional paulista, e o governo estava fazendo de tudo para dar segurança à sociedade garantindo a dignidade ao homem preso. Mas no cotidiano era claro que as regras sistemáticas sofriam mudanças grotescas do lado de dentro das muralhas. Se nas unidades prisionais o ornamento jurídico não é cumprido, que direito tinha o sistema de impor uma punição àqueles que não respeitaram as leis?

Comecei eufórico meu trabalho e tive que aguardar um mês para descer aos pavilhões para dar minhas primeiras aulas. O setor de educação era composto pelos professores estagiários, alguns funcionários e o diretor de educação, esse escolhido pela direção do presídio. Nesse caso bastava ser um funcionário concursado, ter qualquer diploma de ensino superior (mesmo não sendo na área da licenciatura) e contar com a confiança dos diretores da prisão pelos anos de experiência e serviços prestados em outras penitenciarias. Dessa forma, aquele que assumia a direção da “escola da prisão” era simplesmente um ASP (um Agente de Segurança Penitenciário).

Basta imaginar como desenvolvia a relação entre nós, os estagiários, pautados nas discussões pedagógicas de Paulo Freire e nas visões de mundo que nos cercavam, e nossos diretores educacionais dentro das prisões: guardas promovidos. Nos debates pedagógicos dos encontros dos educadores, sempre discutíamos sobre o universo prisional. Ocorre que quando entrávamos na prisão, nós, os professores estagiários, éramos os únicos representantes daquele mosaico ideológico ainda frágil de estudantes em formação.

Nas semanas que aguardávamos para iniciar nossas aulas, eu e meus colegas ficávamos sentados por horas na sala da educação, assistindo o diretor e seus subordinados lerem o dia todo, pilhas de cartas dos familiares dos presidiários e dos próprios internos. Era a chamada “censura”, que passava por toda carta que entrasse ou saísse da prisão. Todo o conteúdo deveria ser avaliado e os guardas julgavam se aquela missiva deveria ou não chegar ao destino. Muitas vezes recebia um carimbo: Censurado. Por incrível que pareça, esse trabalho era desempenhado pelo setor de educação. Enquanto faziam o serviço, muitas vezes os funcionários liam em voz alta alguns trechos das linhas escritas por pessoas em pleno estado de sofrimento e solidão. Ridicularizando o vocabulário ou as histórias por trás daquelas palavras, escritas por parentes e presos. Às vezes expressando uma caridade cristã ao encontrarem histórias de sofrimento ou agradecimentos a Deus. O diretor tentou exigir que nós, educadores, lêssemos as cartas para ajudar no trabalho. “Somos o mesmo setor, vocês estagiários tem que ajudar na censura das cartas”. Muitos de nós obviamente recusávamos. De fato havia alguns companheiros educadores, por se sentirem acuados ou por estarem totalmente perdidos no entendimento da sua real função, aceitavam sujeitar-se a esse infame trabalho. Por esse exemplo é possível ter uma idéia do clima.

Quando começamos a dar aula ficamos mais aliviados. Poucas vezes falávamos com a direção sobre questões pedagógicas e nosso dia-a-dia era cercado de histórias emocionantes que vinham das salas de aula, que eram compartilhadas na improvisada sala dos professores no pavilhão da escola. Cada dia um aprendizado. Nosso contato com a direção era mais reservado para cumprir ordens burocráticas. Quando o assunto passava por questões de interesse da educação, sempre gerava alguns conflitos.

Na realidade nos sentíamos sozinhos ali. Nós contra a prisão. A educação contra a punição. Evidente que com o tempo, percebi que era necessário dialogar com aquelas estruturas, principalmente a fim de conquistar mais espaço dentro daquele ambiente predominantemente punitivo.

Passado um ano, foi transferido para outra penitenciária. Nessa nova unidade prisional iniciei meus trabalhos junto com a professora Lucian. Já nos conhecíamos da faculdade (caloura). Pude conhecê-la ainda mais na FUNAP, nos encontros e treinamentos que recebíamos onde compartilhávamos horas de discussões. Logo me tornei amigo daquela moça faladeira e sorridente. Eu e Luciana começamos um relacionamento de colegas que se transformou em amizade de irmão. Aparentemente não tínhamos muita coisa em comum (assim eu pensava).

Luciana tinha uma vontade louca de viver. Uma espécie de urgência. Com aquela alegria demasiada que beirava o desespero. Justamente isso a fazia ser muito afoita. E daí vinha minha implicância com ela. Muitas vezes queria poder calar sua boca. Eu não me contentava em fazer parte do senso comum e recriminava-a muitas vezes. Sem nem pensar ao certo qual era sua angústia. Simplesmente ficava furioso.

Sempre brigávamos por questões referentes ao trabalho. O conteúdo das discussões se pautava muito no discurso de Luciana quanto a tal opressão do sistema contra os sentenciados. Algo que em tese eu não discordava, mas sua forma simples de ver tudo e sua impaciência era para mim um incômodo. Mas, o curioso é que ao mesmo tempo sentíamos uma necessidade estranha de estar sempre juntos. Isso talvez acontecia pela solidão da prisão. Por fim éramos nós contra todos ali. Na verdade, quando deixei de conviver com ela, percebi que nossos atritos vinham justamente da minha interferência no seu jeito de ser. Queria que ela segurasse um pouco a onda. Ponderasse mais sua fala. Como um irmão mais velho, eu não me contentava em ficar somente envergonhado com suas besteiras, queria fazer com que ela aprendesse a lidar com situações extremas do cotidiano da prisão, e até mesmo fora dali também.

Outras tantas vezes as divergências não eram reservadas somente aos assuntos políticos ou pedagógicos. Discutíamos sobre música, sobre relacionamentos, sobre os amigos da faculdade. Eu implicava com sua tatuagem, ela com meu cabelo comprido. Eu recriminava sua postura com os alunos, ela por sua vez, virava a cara comigo por eu ter dado atenção em demasia às conversas dos guardas. Luciana ouvia pouco e falava muito. A meu ver criava conflitos desnecessários e não ponderava as palavras. Falava o que vinha na cabeça sem fazer filtro de nada.

Eu e Luciana, todos os dias quando passávamos pelo portão de ferro de Serra Azul II, sabíamos que não éramos só estagiários. Carregávamos não só meia dúzia de textos da faculdade e nossas teorias e crenças, mas também toda uma visão de mundo. E sentíamos desespero naquele deserto frio de cimento e grades. Cada passo que dávamos era repleto de sonhos, dúvidas e desafios. Tudo isso perece somente palavras bonitas, folheando a realidade. Mas quem esteve ali naquele ambiente, pode entender bem o que digo. Havia um sentimento de potencia em todos nós educadores. Estávamos numa penitenciária, que trazia não só todo peso inerente à lógica punitiva, como também a histórica cultura brasileira de violência e tortura das instituições repressivas. E éramos naquele espaço uma trégua. Um momento para outros anseios. Entre guardas e presos, contaminávamos o espaço da educação com nossos sonhos. Inocentes, apaixonantes e até certo ponto vaidosos. Lógico que nem todos tinham o mesmo espírito combativo, mas éramos dois estagiários loucos pra fazer frente à vigilância dentro das prisões, assim como outros tantos em outras unidades. Ganhando, a cada dia, um pouco mais de espaço para a “escola da prisão”. Dessa forma tudo era motivo de enfrentamento. Um punhado de lápis e cadernos guardados no armário sem uso, até relatos de violência física contra presos. Tudo era discutido, sentido a flor da pele e muitas vezes atirado em qualquer direção, incluindo a própria direção.

Acontece que tudo isso, posto em Luciana, acabava tendo um efeito ainda mais descontrolado. Ela sempre estava gritando contra qualquer forma de injustiça, com aquele bom “mocismo” e sua compaixão cristã exacerbada. Quando estava diante de um problema, ela sempre reagia. Como no caso de um preso, aluno seu, que foi enviado para o castigo por motivo aparentemente tolo. Ou qualquer outra questão que colocava em cheque o trabalho da educação. Ela reagia e falava, falava... Irritava as autoridades. E quando não, chorava como uma menina que tivesse tido arrancado de suas mãos o brinquedo predileto. Eu muitas vezes temi pela sua própria segurança já que no processo ela foi gerando certas inimizades.

Sempre que eu me colocava em sua frente ela se mantinha irredutível, ainda mais quando o assunto era injustiça. E a forma como reagia não dava muitas opções: ou diziam não e fugiam dela, ou negociavam e melhoravam a situação pra escola. Ninguém domava a professora Luciana. Mas, mesmo que aquela vontade e idealismo todo me cativa-se, eu considerava um erro sua inconseqüência e ingenuidade. Não queria vê-la se expor tanto. E essa minha intervenção deixava-a super irritada. Ela esperava de mim o mesmo grau de cumplicidade.

Discutíamos como irmãos e brigávamos como irmãos. Um dia, numa discussão cotidiana com a direção, eu defendi a opinião do diretor na sua frente. Bastou para que ela almoçasse sem falar comigo. E no horário de descanso, ela sentou a alguns metros de mim querendo chamar a atenção. Eu não resisti e fui até ela pedir desculpas. Ela levantou, com os pés juntos e gesticulando as mãos pra cima de mim gritou: "você pode discordar de mim, mas nunca na frente do diretor". Como se estivesse me perguntando: de que lado você está? Em seguida chorou e me abraçou.

Passamos meses trabalhando juntos e entre aulas e experiências maravilhosas, tivemos muitas batalhas que consolidava o espaço da escola dentro da penitenciaria. A direção puxava a corda pro lado da segurança. Enquanto nós tentávamos garantir algumas exigências pra educação. Essa queda de braços seguiu até o dia que os próprios coordenadores da FUNAP foram chamados de São Paulo para resolver a questão. Luciana havia fomentado tanto uma mudança que após uma reunião, a direção do presídio exigiu a substituição não dela, estagiária, mas do diretor de educação, aquele mesmo cujo cargo era escolhido por confiança pela própria casa.

O que Luciana me ensinou não teve nada haver com enfrentamento da autoridade. Na verdade ela me provocou a fazer uma revisão dos meus próprios valores. A cada momento que eu tentava conter as suas reações, eu tinha uma pausa interna que me deixava perdido. Se eu acreditava tanto em tudo que ela defendia, porque tentava controlá-la? Num primeiro momento eu sabia a resposta, era pra não vê-la ainda mais exposta. Mas essa situação, de tentar apaziguar seus conflitos com a direção de educação, me colocava em dissonância interna. Sabia também que muito do meu descontentamento vinha daquele seu jeito que me irritava, mas o que eu estava preservando? Ela ou nosso serviço? Por fim também entendi que eu também era mais emoção que razão. Os meses que trabalhei na P-II de Serra Azul, entre o “sistema injusto” e os “exageros” de Luciana, foram uns dos momentos mais felizes da minha vida.

Aquela foi nossa primeira experiência como professores. Alguns anos depois comecei a trabalhar numa escola estadual de ensino fundamental e médio, e o clima era totalmente diferente. A sala dos professores era um lugar apático, decadente e fúnebre. Acho que os professores nem perceberam o quanto a sistematização do ensino e o funcionalismo público transformaram-nos em zumbis. Tudo era bem diferente da apaixonante luta diária dos educadores da FUNAP pela conquista de espaço para a “escola da prisão”. Percebi o quanto é mais saboroso, quando acreditamos de verdade no que estamos fazendo. Mesmo que essa crença sofra mudanças com a experiência, ela nos torna mais vivos. Hoje vendo os professores preocupados com suas futilidades, se esquecendo dos alunos, eu sinto falta daquela indignação inocente da minha companheira.

Luciana era uma criança que gritava contra tudo que julgava ser injusto e tinha um desespero de ver nossa escola, desempenhar o papel real de uma escola. Muitas vezes esquecia que estava dentro de uma prisão e queria transcender a repressão com palavras, gestos e um giz na mão. Passado o tempo pude entender que éramos exatamente iguais. A única diferença é que nós dois estávamos aprendendo como fazer.

terça-feira, 30 de junho de 2009

Saudade



Entrei no banheiro do Mercado Municipal de São Paulo. Um banheiro pequeno perto do enorme fluxo de gente. Era um dia de pouco frio, mas lá dentro senti um calor humano. Um calor de gente mutuada. Mesmo sem olhar um na cara do outro, aquela gente toda estava acolhida. O lugar tinha cheiro de gente também. Perfumes, urina, roupa usada.
Entrei no banheiro e não pude deixar de notar um sujeito alto e de meia idade. Agasalhado, com uma blusa de lã que cobria o pescoço e sobre ela uma jaqueta preta e uma pá na mão. Era um funcionário da limpeza que tentava manter certa ordem naquele caos de gente. As pessoas saiam e entravam, lavavam as mãos por obrigação (água fria) e deixavam o local rápido. Não era tão rápido, mas era tanta gente em movimento que parecia que ninguém ficava lento naquele lugar. Passos largos e cabeça baixa. Entravam e saiam. A luz era escura. O ambiente era cinza.
O homem alto não olhava para ninguém, mas observava um cesto de lixo onde todos jogavam o papel toalha usado pra enxugar as mãos frias. Jogavam assim, sem nem perceber, olhavam rapidamente pro espelho e saiam. Desviando de outros tantos que entravam.
De tanta gente e papel toalha, o cesto estava sempre pela boca. O homem com a pá na mão, caminhava, também em passos longos, em direção ao cesto. Levantava a pá e emburrava os papeis para o fundo do lixo. Ao terminar ele caminhava pra um outro canto daquele fluxo todo e não tirava os olhos do cesto. Logo ele partia rapidamente em direção ao lixo e empurrava novamente os papeis. Não fazia uma só vez. Repedia o movimento constantemente. Os olhos nunca estavam distraídos. Olhava fixamente. Ele estava empenhado no seu trabalho, mas sua atenção estava além dos seus movimentos. A ação era condicionada, mas também muito consciente. No entanto ele não olhava o lixo. Respirava fundo algumas vezes e aquele mundo de gente não estava lá senão para jogar o papel no cesto. E ele conversava com aquele cesto e seu olhar dizia isso. Ele falava sobre saudade.
Fiquei lá, parado, observando-o por alguns instantes. E mesmo eu, contrariando a lógica do movimento do banheiro, não consegui desviar sua atenção interna. Eu também falava sobre saudade. Fui embora com a sensação que aquele homem, em seu movimento entre gente passando e o empurrar dos papeis com a pá, era continuo e eterno.
Naquela tarde quase fria fui a Pinacoteca do Estado. Era dia de muita gente, sábado, entrada franca. E parece que São Paulo sempre é dia de muita gente.
Segui em busca de uma obra em especial. Muito mais que uma visitar a uma pinacoteca ou admirar uma pintura, naquela tarde eu precisei da Saudade. Eu não sou bom pra ver as coisas normais. Não sei ir à pinacoteca alguma, mesmo já tendo ido algumas vezes nessa. Não me ensinaram. Fui lá porque eu necessitei e por ventura isso era um passeio. Que bom.
Segui numa ansiedade medida. Cada passo era dado por mim como se todo mundo soubesse que eu precisava estar diante daquela imagem. Então fiz tudo como um adulto, andei mentindo que estava calmo e acabei ficando calmo mesmo e entrei naquela sala, me contendo, desprezando a obra que tanto me atraia. Observei com carinho outras pinturas do mesmo artista. Era justo.
Passei pela Saudade, mas desviei o olhar. Olhei pro chão e segui esperando um momento certo. Pessoas passavam por mim e aquele silêncio esquisito de muita gente num mesmo lugar me perturbava. O bagulho do assoalho de madeira era mais alto que o silêncio e também me distraia. Nesse instante eu já estava com o coração querendo ficar dividido. Criei uma coragem envergonhada naquele silêncio e fiquei diante do quadro.
A mulher num quarto simples, junto a janela, com a cabeça baixa, olha fixamente para um papel que segura com sua mão esquerda e com a outra esconde a boca com um xale preto. As paredes estão avermelhadas pela luz que vem de fora e todo o resto fica em torno do centro negro do quadro. A saia longa preta, o xale negro num escuro com cor.
A claridade que entra pela janela faz com que os cabelos dessa mulher tenham uma luz negra e isso me atrai para seu rosto branco, cheio, macio e com cheiro. Uma lágrima brilhante escorre. Uma lágrima que sai de dentro dela com tanta autoridade que a faz ser maior que a tristeza. Ela tem a tristeza pra si. Não é desespero disfarçado. Não pede ajuda embora eu quisesse entendê-la.
Depois de um tempo não consegui ver mais a quadro nem sua moldura nem ouvir os passos no assoalho. Descobri sobre saudades. Essa mulher branca, com as mãos delicadas e quentes, procura algo que a possa lembrar do dia que mesmo não sendo feliz, ela sentiu saudade. Uma saudade (vazio repleto) que podê-se ter e podê-se medir e esnobar. Ela conversa com a lembrança porque agora sabe que saudade é ser saudade. E a lágrima que escorre não é fraqueza, é sua afirmação. Ela precisa sempre lembrar que tem isso em si. Não existe outro grito tão ensurdecedor no mundo. Esse grito tem muito de injustiça também.
A dor dessa mulher não serve só pra olhar porque ensina a ser feliz e triste. A entender (sem precisar) que é possível brincar com a saudade. E a tristeza de saber até onde pode ir nossa fortaleza (ela é maior que a multidão). A saudade é honesta.
Eu não pude deixar de lembrar do homem do banheiro do Mercado Municipal. Ele segurava aquela pá e não chorava, mas respirava fundo. E por algum motivo eu tenho certeza que ele falava de saudade com aquele cesto. Porque no rosto enrugado não tinha tédio. Ele não era nada além daquilo que já entendia ser e sabia o que fazia e tinha em si uma fruta doce que nunca saia de lá mesmo estando velha. Ele deveria sair daquele banheiro e encontrar essa mulher. Ambos não passariam despercebidos.
Eu me senti pequeno perto daquele quadro e da mulher. E senti amor pelos dois. Quis tocá-los. E não tive dó daquele homem. Eu quis entendê-lo. E quis ser como eles. Quis aprender a ter saudade. Quis sair pelas ruas e assistir tanta gente mutuada e me sentir solitário de um jeito diferente. Aprender a ter saudade, a ter saudade e a ser saudade. Conter tudo em mim e tudo em uma lágrima.
Ricardo Brasileiro

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Será que é a paixão?

Muitos falam que futebol é paixão. Que o amor do torcedor é imparcial. Mas eu fico muito preocupado quando me pego apaixonado ou amando o futebol. Explico: quando assisto aos noticiários esportivos, me sinto um idiota fanático. Ou um alienado. Tenho até vergonha de dizer que gosto de futebol.
O fato é que a mídia transmite um futebol embalado e sintetizado. Totalmente sem criatividade. Sem a verdadeira paixão que ele tem. Minha paixão pelo futebol se dá por algo que vai muito, mas muito além do que vemos na tv. E quem já sentiu esse amor sabe do que estou falando.
O futebol propicia manifestações humanas de grande relevancia. Ainda vou falar muito disso, mas só pra garantir essa postagem segue um link da torcida do St. Pauli da Alemanha. Um time pequeno. Que joga divisões inferiores na Alemanha. Dêem uma olhada na torcida em seu pequeno estádio. Além deles serem muito criativos nos cantos, adaptando canções pop, os fans do St.Pauli são também conhecidos por terem uma posição antifascista. Enquanto nos estádios se prolifera as ofenças raciais, essa torcida é um exemplo de posicionamento político dentro dos campos (ou melhor, nas arquibancadas). Sem contar na relação que há entre time no campo  etorcida na arquibancada. Observe o momento em que jogadores (no gramado) e torcida (no alambrado) entram em uma sintonia rara de se ver nos jogos transmitidos na grande mídia. Será que sou um idiota fanático ou isso é lindo de morrer mesmo?

http://www.youtube.com/watch?v=l8-f0ved8R4